Quando comecei a estudar o modelo de SAF no futebol brasileiro, uma das histórias que mais me chamou atenção foi a do Botafogo.
Um clube centenário que saiu de uma situação financeira extremamente delicada, recebendo investimentos milionários e rapidamente voltou a competir esportivamente, vencendo um Campeonato Brasileiro e uma Copa Libertadores da América no mesmo ano de 2024.
Nesse sentido, parecia o cenário ideal para os torcedores do Botafogo, mas, paralelamente às conquistas, crises internas rondavam os bastidores do clube.
A TRANSFORMAÇÃO
O ano era 2022, o empresário John Textor, assume 90% da SAF do Botafogo, através da empresa "Eagle Football Holdings", injetando recursos milionários e assumindo dívidas anteriores.
Com o investimento vieram contratações pontuais, mas não menos importantes e que geraram grandes resultados em campo, conseguindo assim em apenas dois anos (2023 e 2024), gerar uma mudança radical no time em campo.
Virando assim uma referência, principalmente, para os torcedores brasileiros que passaram a enxergar a SAF como uma solução possível para conter crises financeiras nos clubes mal administrados.
QUANDO COMEÇAM OS PROBLEMAS
É importante ressaltar que nesse caso específico do Botafogo, a SAF não trouxe apenas benefícios e mudanças positivas para o clube, pois já no início do ano de 2025, os sinais de instabilidade no comando da gestão começam a ganhar força e os resultados disso refletem diretamente em campo.
Dentre esse sinais estão:
- Decisões impulsivas publicamente;
- Centralização das decisões na figura do investidor John Textor;
- Dependência emocional e financeira do investidor;
- Problemas de comunicação com a torcida e imprensa;
- Trocas constantes no comando da equipe;
Dentre todos esse problemas citados, na minha visão acredito que o maior dos problemas enfrentados pelo Botafogo, começou justamente quando passou a depender muito da figura de seu investidor, que é uma pessoa com personalidade forte, deixando em segundo plano a estrutura institucional do clube.
TRANSFERÊNCIAS PARA O LYON DA FRANÇA
Outro debate que não posso deixar de citar, foram as transferências de jogadores para o Lyon da França, time ao qual Jonh Textor também é acionista.
Lembrando que transferências de jogadores para outros clubes sejam eles nacionais ou internacionais é algo comum no mundo do futebol, mas nessas negociações especificas os valores e retornos financeiros ao Botafogo foram negligenciadas, o que acabou levantando suspeitas.
Quando não há clareza na comunicação, principalmente financeira, os rumores, os conflitos e a desconfiança ganham força extra.
No ano de 2025, os problemas citados, começam a tomar forma e refletir em campo, apesar de ainda no Campeonato Brasileirão a equipe tenha feito boa campanha, mas nada parecido com o ano anterior. Era uma equipe forte, mas, sem a pegada de antes, a equipe aos poucos iria se desfazendo com a venda de alguns jogadores que brilharam em 2024.
A euforia da torcida botafoguense já não era mais a mesma, e o sentimento e a preocupação dos anos anteriores ao Textor, volta incomodar.
QUANDO A COMUNICAÇÃO SE TORNA UM PROBLEMA
A comunicação dentro de um clube de futebol, sendo ele SAF ou associação, não pode ser confundida apenas na divulgação de resultados ou contratações, ela deve ser pensada como uma estratégia da área do departamento de marketing.
Uma SAF está sempre em evidência para seus torcedores, patrocinadores, investidores e imprensa. O impacto por uma comunicação mal feita ou mal interpretada causa dano significativo a marca.
Declarações do investidor, John Textor, criaram um buzz marketing, colocando o Botafogo no centro de alguns debates e muitos deles não esportivos.
As denúncias que o mesmo fez sobre manipulações de resultados, conflitos com dirigentes de outros clubes e críticas ferrenhas à arbitragem, causaram grande repercussão nacional, aumentando a exposição negativa da marca, mesmo tendo como apoiadores os torcedores botafoguenses.
O projeto de uma SAF, não pode depender apenas do dinheiro investido, ou apenas de grandes resultados no futebol, ela precisa de uma reputação, uma boa imagem e transparência.
TRANSFER BAN
É uma punição aplicada pela FIFA, impedindo um clube de registrar novos jogadores durante um tempo. Normalmente é aplicado aos clubes descumpridores de obrigações financeiras relacionadas a transferências de jogadores, direitos econômicos ou outras decisões judiciais.
O primeiro transfer ban, sofrido pelo Botafogo, caiu como uma bomba, pois a SAF era tida como um case de sucesso no futebol brasileiro.
Até o momento desse artigo, o clube foi penalizado cinco vezes com o transfer ban.
Além da penalidade de não poder inscrever novos jogadores em seu plantel, outros questionamentos surgem como: será que a gestão tem um planejamento financeiro no mínimo satisfatório? Será que irão conseguir cumprir com as outras obrigações contratuais? Será que tem condições de gerir a SAF?
O QUE O MARKETING PODE TIRAR DE ESTUDO DO CASO DO BOTAFOGO
Considerando o exposto, saliento que no marketing esportivo consigo tirar lições como:
- A marca do clube deve sempre estar em primeiro lugar, depois a imagem de seus investidores;
- Deve haver um planejamento estratégico para a comunicação de possíveis crises;
- Quando há investimentos financeiros, a transparência deve ser encarada como algo valioso;
O Clube Botafogo conseguiu com a SAF, recursos financeiros, modernizou sua gestão e aumentou o nível competitivo da equipe, porém, também conseguiu mostrar que reputação, imagem e relacionamento com seu torcedor, são verdadeiros ativos da instituição e devem ser tratados com a mesma atenção que às finanças.
CONCLUSÃO
Definitivamente a SAF não pode ser considerada uma fórmula mágica, isso fica nítido no caso do Botafogo.
Ela pode transformar o clube em uma potência, mas ela exige novas posturas administrativas, inteligência para atuar no mercado e muita responsabilidade institucional.
No futebol moderno, marketing e gestão devem caminhar juntos.
E você acredita que o Botafogo está no caminho certo com a SAF?
Ou o Botafogo se tornou dependente da imagem de seu investidor?
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